A pequena história
1 juillet 2011
Passou-se há uns anos, na altura das festas de fim de ano. Estávamos sentados à mesa, Mitiku B. ao meu lado. Ele era um homem alto, como o são os etíopes. Iminente cirurgião bariátrico, a sua simplicidade contrastava com a posição social.
Estávamos entre amigos e partilhávamos o queijo da nossa terra (queijo da serra), partilhávamos o pão.
Sempre tive orgulho nesta cerimónia tão simples. Mitiku emocionou-se.
Pôs-se a contar a história de um rapazito de 6 anos que fora para a casa dum tio em Addis Abeba para aprender a ler e a escrever. A saudade da mãe fê-lo regressar, poucos meses depois a Chebo, esquecendo os estudos. Subiu a montanha com um rebanho e assim foi crescendo. Mitiku era o rapazito. Ele tinha 12 anos quando um dos irmãos adoeceu e decidiu, olhando para as estrelas, ser médico.
Inscreveu-se na escola e venceu as etapas, levando diplomas, prémios e a bolsa que o projectaria para fora do pais para vir a ser a pessoa atípica sentada ao meu lado.
Tinha uma visão idílica, poética do pastor.
O Tóino alimentava esta faceta porque é uma pessoa afectuosa, com o coração do tamanho do mundo. É a ele que devemos a nossa ida à transumância com o apoio incondicional do João, seu filho, e do Pedro.
A Lã e a Neve foi o despertar da realidade do pastor traduzida nas palavras de Ferreira de Castro. Tive os meus primeiros arrepios, acordando para uma nova realidade que só vim agora perceber e que infelizmente ainda não consigo verbalizar.
Aquele lugar é dos homens. E honra-se!
Não vou jamais esquecer o som das louças e chocalhos. Quantas vezes ouvi melodias arrancadas da terra.
Não vou esquecer os meus passos no meio do rebanho, na mesma cadência, sentido o calor da lã, o prazer de enfiar a mão no pêlo delas e sentir um aconchego.
Não vou esquecer a travessia das povoações, o aceno das gentes, o orgulho do pastor.
Não vou esquecer o maioral Miguel, porque sem ele não nós seria possível seguir o seu percurso na transumância estival na Serra da Estrela.
Não vou esquecer os outros pastores, o Américo, o João, o Manuel António, o Miguel, o Pedro…
Não vou esquecer os familiares, a bucha, a sombra do pequeno pinhal nas Portas.
Para não esquecer!












1 juillet 2011 at 11:15
Muito bonito, Diane.
2 juillet 2011 at 12:10
E é inesquecível o teu relato e as tuas fotografias! Bem hajas, como tu tanto gostas de dizer;-)
Beijos!
2 juillet 2011 at 10:43
Breathtaking Dianne! Obrigado*
3 juillet 2011 at 4:54
Tão, mas tão bonito este post!
Obrigada.
4 juillet 2011 at 12:21
maravilhoso!
4 juillet 2011 at 8:53
ah, valentes!
22 juillet 2011 at 5:05
[...] e o indispensável cajado, de pau de marmeleiro ou de outra madeira que não apontei (Diane, lembras-te?), uma melhor para o tempo seco e outra para o inverno, bordado no topo à navalha por [...]