Matança do Bácoro
24 février 2012
Há 10 anos atrás era incapaz de ouvir sequer a matança dum porco.
Entrar e conviver com as tradições duma aldeia, permitiu-me abrir os olhos e entender a importância de certos rituais que de qualquer forma vão desaparencendo.
O porco, para muitos portugueses, é a base essencial da alimentação como a batata no Norte e o pão no Sul.
A matança, desempenha uma função social bastante relevante na comunidade rural, estructurada e rica em tradições. A matança mobiliza toda a comunidade, é motivo de festa.
E assim foi no domingo passado. Chamaram-lhe a Matança do Bácoro. Os homens atarefavam-se à volta da carroça, as mulheres na cozinha, descascando os alhos para cozer o sangue que será, na hora certa, comida em cima do porco.
Gosto de observar os homens, as mãos, as expressões faciais, os saborosos vocábulos.
Gosto de me refugiar na cozinha e ver as mulheres em outras tarefas.
Gosto de vê-los unidos, num ambiente de aproximação ritual da família e da comunidade.
Infelizmente, uma tradição que tem vindo a perder adeptos e com ela arrasta tantas outras perdas.













24 février 2012 at 5:53
Percebo bem o que dizes, mas para mim há um limite nas tradições que para mim deixam de fazer sentido, quando estas envolvem muito sofrimento. Percebo a função social, mas entendo que certas tradições podem muito bem passar à história. Por outro lado, este animal deve ter sido bem mais feliz do que muitos outros nos matadouros. Pelo sim, pelo não, a minha consciência não me deixa comer nenhum :-)
24 février 2012 at 7:31
Este post deixa-me saudades, um pouco antes de vir para a Escócia os meus avós deixaram de criar porcos, todos os anos ia à matança do porco mas também não conseguia ouvir o porco, só depois lá ia eu de copinho na mão oferecer água ardente aos homens. A minha avó fazia sempre um café especial e filhós para o pequeno almoço e o almoço era cabidela da galinha que ela tinha preparado antes. Apesar de ter partecipado tanto (lembro-me de limpar as tripas para os enchidos, ver fazer a banha, etc) tenho pena de não ter tomado mais atenção, mas quando somos pequenos não pensamos que aquilo que agente conhece como ritual é uma tradição que se está a perder…
24 février 2012 at 7:56
Em teoria percebo o que dizes. Na prática seria incapaz de participar. E até as fotografias, apesar de bonitas, me causam uns certos arrepios.
25 février 2012 at 12:45
Eu gosto tanto de matar saudades de POrtugal quando estou a isitar-te….Obrigrado de parilhar essas images…
25 février 2012 at 2:37
É das poucas tradições nas aldeias com a qual não me sinto à vontade, matar para comer. Embora pense que um animal criado no campo tem uma vida muito melhor que os que crescem na produção em massa.
Quando era miúda assisti à matança do porco e de outros animais e a única coisa que conseguia fazer era fugir rapidamente dali. Sempre me impressionou e quando como carne nunca posso deixar de me lembrar do sacrifício dos bichos. Por isso, embora não seja vegetariana, consumo muito pouca carne actualmente e espero deixar de o fazer de vez no futuro.
25 février 2012 at 10:49
Se tivesse de matar para comer, provavelmente morreria de fome…ou talvez não. Digo isto porque há quem mate os bichinhos por mim. Como carne e peixe (ninguém pensa nos peixes que morrem asfixiados fora de água) e alfaces e legumes (que apesar de não os ouvir, será que gritam quando lhes arranco as folhas ou os corto às fatias…) mas só tenho estes prúridos quando não vejo a matança! O homem sempre matou para comer, somos predadores…
27 février 2012 at 11:41
Que saudades!
Nada é melhor do que comer o porco grelhado nas brasas, acabado de matar!
Tirar entremeada, do lume para o pão real, saboroso e caseiro!
A nossa “globalização europeizada”, tornou proibida esta reunião!
A descrição que faz do movimento social, afectivo, e festivo em volta da “matança”, é necessário, e não percebo a hipocrisia de ir ao supermercado e trazer caixas herméticas de carne, com o autocolante a dizer para que serve aquele bocado, e como se cozinha; e depois ter tanto asco da acto da morte em si!
O mundo não deixou de ser real e “animal”, só porque está “maquilhado”!
Aproveito para dizer que gosto imenso das fotos que publica!