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23 novembre 2011
Os vizinhos
14 septembre 2011
De norte a sul do país, a noção de vizinhança ganha formas diferentes e mesmo se nos dias de hoje há uma tendência para uma uniformidade da palavra, temos a rica sorte de ter bons vizinhos.
Estou ladeada de casas. A da direita é compartilhada por 3 irmãos, uma casa de férias em suma. A Dona Augusta e o Sr. Vitorino abriram-me a porta sobre este pequeno universo, simples, acolhedor. Sentados nos degraus da cozinha, trocam-se palavras duma vida que não fora tão fácil.
A casa da esquerda é duma senhora sem idade, com histórias por contar. Uma mulher alegre com um coração cansado. Bi Júlia entrou na nossa vida, também pela mão das nossas filhas. Na gaveta das recordações, tirou de lá um caderno e clamou estes versos:
Sou
1 mai 2011
No dia dos meus anos, estávamos em viagem. Houve um piquenique e não faltou o bolo. Ao longo do dia fui recebendo prendas e mais prendas (não julguem que foram assaltar as lojas… uma flor, uma pedrinha, um desenho, umas palavras, um beijo, um sorriso para mim são as mais lindas prendas que jamais poderia receber).
Partilho hoje uma das prendas dada pela M. porque também sou mãe.
Para a melhor mãe de Portugal,
da Europa, deste planeta e até mesmo do Universo.
Dizes que és feia e só vês gordura,
Eu digo que és linda e só vejo formosura.
Dizes que a tua cara é velha e rugosa,
Eu só vejo que ela é macia e carinhosa.
Dizes que o teu cabelo não tem volume e não tem postura,
Eu digo que é lindo cabelo de uma famosa escultura.
“Estas unhas dos pés são esquisitas” dizia ela,
Pois eu digo que são as unhas duma cinderela.
Dizes que as tuas mãos só mostram veias, a pele manchada e feia,
Pois eu agora digo que as veias são de ouro, talvez lá dentro circule um tesouro.
Dizes que é horrível ter muito peito,
Pois digo-te eu que durante meses foi o melhor leito.
Dizes que a tua barriga é um pneu,
Agora é a minha vez de te relembrar que foi dessa barriga perfeita que a tua primeira filha nasceu.
Clouds
3 mars 2010
On this month everything is cold.
On this place everything is old.
So, now only we are in the blue sky
and I say:”we can try”.
But very far away
a voice like you tell me stories.
Today, is a good day.
I have dreams between memories.
And on final day I see one cloud
and listen the loud
music on the city. On this night
I look for the light
planet where we love beautiful clouds.
Matilde, 11 anos.
A Visita de Estudo
7 février 2009
O Porto fomos visitar
vendo o nosso lindo mar.
Alice no País das Maravilhas no Teatro Rivoli.
E este poema escrevi só a pensar em ti,
encaramos a história como um sonho,
que Alice sonhou, um sonho louco.
Logo me vejo
a fazer novos amigos
é um lindo desejo.
O Parque da Cidade
junto de seguido o Pavilhão da Água
e foi uma mágoa ver tanta poluição
até me parte o coração.
Experiências fizemos
que nos fizeram querer que a vida não tem sabor sem água.
De regresso viemos na bruma
do autocarro cheio de bom humor.
A caminho de casa fomos jantar ao Palácio do Gelo (Viseu)
e chegamos a ver o repleto sol do fim do dia.
Para a Mãe, comprei um colar
tinha a certeza que ela ia adorar.
Uma pulseira para mim
de três estrelas que cheira a jasmim.
Que dia delicioso,
o teatro foi fabuloso!
Matilde, 10 anos
A Rosa Azul
30 septembre 2008
Um dia fui ao meu jardim
E colhi um alecrim
Cheirava bem
Que dei a minha mãe.
Um dia fui ao meu jardim
E colhi uma rosa
Mesmo espantosa.
Um dia fui ao meu jardim
E colhi um girasol
Que seguia sempre o sol.
Um dia fui ao meu jardim
E colhi um malmequer
Que ele bem me quer.
Um dia fui ao meu jardim
E colhi uma túlipa
E vi um senhor fumar na pipa.
Clotilde, 8 anos.
Est-ce passe-temps?
21 août 2008
Est-ce passe-temps d’écrire
est-ce passe-temps de rêver
Cette page
était toute blanche
il y a quelques secondes
Une minute
ne s’est pas encore écoulée
Maintenant voilà qui est fait.
Jacques Prévert, Fatras,1966
Roman
24 juin 2008
I
On n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans.
— Un beau soir, foin des bocks et de la limonade,
Des cafés tapageurs aux lustres éclatants !
— On va sous les tilleuls verts de la promenade.
Les tilleuls sentent bon dans les bons soirs de juin !
L’air est parfois si doux, qu’on ferme la paupière ;
Le vent chargé de bruits, — la ville n’est pas loin, —
A des parfums de vigne et des parfums de bière…
II
— Voilà qu’on aperçoit un tout petit chiffon
D’azur sombre, encadré d’une petite branche,
Piqué d’une mauvaise étoile, qui se fond
Avec de doux frissons, petite et toute blanche…
Nuit de juin ! Dix-sept ans ! — On se laisse griser.
La sève est du champagne et vous monte à la tête…
On divague ; on se sent aux lèvres un baiser
Qui palpite là, comme une petite bête…
III
Le cœur fou Robinsonne à travers les romans,
— Lorsque, dans la clarté d’un pâle réverbère,
Passe une demoiselle aux petits airs charmants,
Sous l’ombre du faux-col effrayant de son père…
Et, comme elle vous trouve immensément naïf,
Tout en faisant trotter ses petites bottines,
Elle se tourne, alerte et d’un mouvement vif…
— Sur vos lèvres alors meurent les cavatines…
IV
Vous êtes amoureux. Loué jusqu’au mois d’août.
Vous êtes amoureux. — Vos sonnets La font rire.
Tous vos amis s’en vont, vous êtes mauvais goût.
— Puis l’adorée, un soir, a daigné vous écrire… !
— Ce soir-là,… — vous rentrez aux cafés éclatants,
Vous demandez des bocks ou de la limonade…
— On n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans
Et qu’on a des tilleuls verts sur la promenade.
Muros
19 mai 2008

Sem circunspecção, sem mágoa, sem pejo
grandes e altos em redor de mim construíram muros.
E fico e desespero agora no que vejo.
Não penso noutra coisa: na minha mente esta sina rasga furos;
porque tantas coisas havia a fazer lá fora por ti.
Quando construíam os muros como é que não reparei, ah.
Mas nunca o estrondo de perdeiros ou som ouvi.
Imperceptivelmente cerrarm-me do mundo que está lá.
Konstandinos Kavafis
Edições Cotovia, 1988


















